sexta-feira, março 17, 2006

Hulck, o cão obtuso. uma frustação. uma certeza.

Então eu chegava em casa e ele vinha me receber. Era um ritual diário sagrado, uma doação diária, mútua, entre o cão - de nome Hulck -, e eu. Nos entregávamos, nos doávamos como mãos se dão. Eu, que não tivera filhos e muito menos pessoas ao redor, só tinha o cão, enquanto ele que nunca se interessava por uma cadelinha de rua, só tinha a mim e nossa relação era de amor.Chegava de madrugada em casa, ele a minha espera, eu, ansioso por encontrá-lo, prendia-o na coleirinha então passeávamos, eu mostrava objetos, odores, flores, luas, poças de água, e ele me mostrava o quão bonito são os pequenos gestos diários que passa despercebido enquanto achamos que vivemos. doce ilusão, e o Hulck sabia bem o que isso significava. Nunca me abandonou. Era ele quem vinha ao meu encontro enquanto derramava o meu "Mar de Alice", enquanto ouvia canções ou via algum seriado americano bobo que adorava. Ou mesmo um filme, um gesto, uma poesia... Era o Hulck quem vinha ao meu auxílio e me tranquilizava com um olhar suave e sereno, como quem me entendia - e ele me entendia -, como quem sabe que dar-se às circustância é perigoso, que estar por fora da grande roda gigante também é perigoso. o Hulck sabia disso.Foi então que veio a doença, e o corpo fragilizado do meu amigo. Tentei remédio, leite, orações - sim, eu rezei, rezei para quer qualquer entidade superior salvasse meu filhote. E nada, ele até melhorava, mas não o suficiente...
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Ah, perdão. Não consigo terminar... =~ O final todos sabem, o cachorro veio a falecer. E sabe o mais incrível de tudo isso? Eu sentir tudo como se fosse comigo. Tenho dessas de fazer as dores dos outros sentimentos bem meus. Como é possível?
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E a Bíblia para o ponto final:
O amor é tão poderoso como a morte; e a paixão é tão forte como a sepultura. O amor e a paixão explodem em chamas e queimam como fogo furioso. Nenhuma quantidade de água pode apagar o amor, e nenhum rio pode afogá-lo. Se alguém quisesse comprar o amor e por ele oferecesse as suas riquezas, receberia somente o desprezo. (C.C., Bíblia)

Um comentário:

Raisa Christina disse...

Tomar o sentimento dos outros é um talento, coisa rara, de gente extremamente sensível. Vive-se mais quando se transporta até o outro, o que é um grande ato de coragem.