terça-feira, agosto 24, 2010

Uma veste provavelmente azul.



de: Caio Fernando Abreu.

Eu estava ali sem nenhum plano imediato quando vi dois homemzinhos verdes correndo sobre o tapete. Um deles retirou do bolso um minúsculo lenço e passou-o na testa. Pensei então que o lenço era eito de finíssimos fios e que eles deviam ser hábeis tecelões. Ao mesmo tempo lembrei também que necessitava de uma longa veste: uma muito longa veste provavelmente azul. Não foi dificil subjugá-los e obrigá-los a tecerem para mim. Trouxeram suas famílias e levaram milênios nesse trabalho. Catástrofes incríveis: emaranhavam-se nos fios, sufocavam no meio do pano, as agulhas os apunhalavam. Inúmeras gerações se sucederam. Nascendo, tecendo e morrendo. Enquanto isso, minha mão direita pousava ameaçadora sobre suas cabeças.

Um comentário:

Jailda Galvão Aires disse...

Gostei do seu texto. Há dois mil anos nada mudou. O forte subjuga o fraco, roubando-lhe o tempo, o talento e o
querer. Uma arma invisível apontada para a cabeça.
Parabéns!