quarta-feira, junho 07, 2006

E.

“(...)mas Adelina, você sabe tão bem quanto eu, talvez até melhor, a que ponto de desgaste nosso relacionamento chegou. Devia falar desse jeito mesmo com os alunos, impossível que você não perceba como é doloroso para mim mesmo encarar este rompimento. Afinal, a afeição que nutro por você é um fato.
Teria mesmo chegado ao ponto de dizer nutro? Teria, teria sim, teria dito nutro & relacionamento & rompimento & afeto, teria dito também estima & consideração & mais alto apreço e toda essa merda educada que as pessoas costumam dizer para colorir a indiferença quando o coração ficou inteiramente gelado”.
(Caio Fernando Abreu, Os Sapatinhos Vermelhos)
Então virou o rosto até mim e com aquela boca repleta de dentes, depois de regozijar-se todo – sim, pois, livrar-se de mim é um alívio que há tempos eu também necessito sentir -, pronunciou o “acabou”. Confesso que no íntimo e mais secreto eu sabia que aquilo não iria perdurar por muito. A gente sempre sente, não sente? Durou uma semana. O momento todo poderia ser condicionado em 24 horas. Ou um pouco mais. Incrível como até no amor devemos manter o bom-senso e saber medir as coisas. O amor quando grande demais, quando um não consegue mais viver sem pensar no outro, infelizmente esse amor não é mais aplicável. Nem justificável.
Entrei cabisbaixo no quarto, pequena morada do Menino. Tirei os chinelos, os objetos do bolso e esparramei tudo pelo chão simbolizando a minha vida perdida e ao léu, ofertada aos poucos por aí, espalhados com a minha pequena ira interna saliente. Olhou-me: precisamos conversar, decidido como quem deseja água acordando de madrugada com a boca seca. Seco estava eu por inteiro. Seco e oco. Sentamos um de frente para o outro, abraçamo-nos, pois era o que restava fazer naquela posição “flor-de-lótus”, encontrei no ombro dele o apoio para a minha cabeça confusa, onde a abandonei, enquanto os meus dedos finos deslizavam por seus cabelos-seda-árabe, preciosa. Não lembro se encontrou em mim esse apoio. Talvez sim, talvez não, talvez nunca. Ele precisa de um porto seguro, eu sou um barquinho de papel perdido em alto-mar.
E foi balbuciando palavras com o olhar fixo em mim. Eu estava desesperado. Para onde dirigir o olhar? E quanto às mãos? Meu deus o que fazer com as mãos? Ele ia falando, falando, querendo justificar o injustificável, não aplicado, em movimentos retrógrados de pensamento enquanto minha vida inteira era esse movimento retrógrado hiato. A vida, cada dia mais, Mais insuportável. Desejei tanto um cigarro! Provar do meu veneno diário e esquecer. Eu sabia que não iria me suportar, eu não levo paz para ninguém, dou sempre a mesma taça Faço com que digam: não é paz que eu tinha, agora é que eu necessito.
Enquanto vem - eu completamente despreparado -, aceitando tudo com uma resignação ofendida. Depois vai, e me encontro aqui, só, completamente só. Antes mais sozinho do que tenho estado.

2 comentários:

Raisa disse...

toda essa merda educada é o discurso que se usa quando uma pessoa não quer mais a outra e é covarde demais pra dizer de forma crua e fazer com que a outra a odeie. essa pessoa covarde vai soltando pistas do que realmente deseja dizer, deixando reticências aqui e acolá, trabalhando as entrelinhas e os eufemismos, sem nunca falar: é isso e pronto, acabou. mas, pensando melhor, é tão difícil ter essa coragem... taí uma coisa que admiro, a sinceridade nos momentos mais delicados. isso eu não tenho.

Raisa disse...

charlinho, a fe disse q talvez a uece voltasse essa segunda, mas ainda acho difícil. qdo souber algo seguro, te ligo logo, viu! como andam as coisas pelo nosso pequeno paraíso, hein? o bel e o weiber? como eles estão? abraço apertado de saudade :*